Acidente Voepass: Cenipa cita conversas pessoais de pilotos durante voo e 'esquecimento' de acionar sistema de degelo
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| Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP |
Os pilotos da Voepass responsáveis pelo avião que caiu em Vinhedo (SP), em acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024, conversavam sobre assuntos pessoais durante o voo e esqueceram de ligar o sistema de degelo, mesmo após alertas emitidos pela aeronave.
A situação foi revelada pelo tenente-coronel do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) Paulo Mendes Fróes durante a coletiva desta quinta-feira (23) para divulgação do relatório final sobre a tragédia.
O avião por diversas vezes acionou o alerta electronic ice detector, que indica situação favorável para acúmulo de gelo na aeronave e deveria levar ao acionamento de protocolos, como mudança de velocidade e acionamento do sistema de degelo.
No entanto, segundo Fróes, durante toda a gravação da caixa-preta o piloto Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva conversavam sobre assuntos pessoais.
"Há uma grande parte das gravações que os dois pilotos estão conversando sobre assuntos pessoais", relatou o tenente-coronel.
Às 13h11, quando o avião emite o alerta pela quarta vez sobre o acúmulo de gelo, o copiloto comenta com o piloto que tinha esquecido o sistema de degelo.
"Então, o comandante comentou que ele poderia ligar todos os sistemas de-icing [sistema de degelo]. O copiloto, então, questiona o que o comandante teria dito. E o comandante respondeu que já tinha ligado todos os sistemas de-icing. Porém, o sistema permaneceu desligado", disse Fróes.
Na quinta detecção de gelo na aeronave, às 13h12, os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais.
Durante a coletiva, Fróes afirmou que, "embora os tripulantes tivessem sido submetidos aos treinamentos exigidos" para operar um avião em situação de formação de gelo severo, "as ações observadas durante o voo do acidente não se mostraram condizentes com o nível mínimo de proficiência desejado" e não houve resposta adequada aos alertas.
Ainda segundo o Cenipa, o comandante passava por problemas pessoais que afetavam negativamente seu desempenho. Isso pode ter influenciado a postura do profissional durante o voo e desviado o foco aos alertas, o que pode ter contribuído para o acidente.
No entanto, a conduta da tripulação durante o voo e os problemas pessoais do comandante foram apontados pelo órgão da Força Aérea Brasileira (FAB) como "indeterminados" para explicar a queda do acidente. Isso significa que não é possível cravar se contribuíram para a tragédia.
O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pelo Cenipa para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.
Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento. A companhia também informou que segue colaborando de forma transparente com as investigações — clique aqui e veja a nota na íntegra.
Viúva defende copiloto
A viúva de Humberto, Rosana Maria Ferreira, defendeu o copiloto sobre a alegação de um possível "erro humano" por conta de conversas pessoais. Segundo ela, a parte humana de Humberto "falou bem mais alto" para "acolher" Danilo.
"O que eles relataram é que eles estavam conversando sobre assuntos particulares exatamente quando estava pilotando, o que é extremamente normal os pilotos conversarem, eles não falam só de aviação, só da parte técnica do voo", ponderou.
Rosana ainda ressaltou que 19 fatores contribuíram para a queda do avião e que representantes do Cenipa, entre eles Fróes, teriam dito a ela que "os pilotos fizeram de tudo".
"Recebi com muito carinho a fala de que o meu marido fez o que tinha de ter feito. Tudo o que poderia ter feito, ele fez. Só isso já ameniza, já bate o veredito final. Não, ele não teve culpa", afirmou.
*G1

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